Não quero voltar ao TGV ou outros investimentos , tipo grandes obras públicas . Quero , sim , trazer à vossa atenção uma outra perspectiva para os investimentos públicos .
Numa economia de mercado , como a nossa , as empresas procuram a maximização do lucro e um retorno rápido para os investimentos feitos . Não consigo imaginar empresas em que a nível do centro de decisão de topo sejam analisadas e decididas propostas de investimento a longuíssimo prazo ( 20 anos ou mais ) e com resultado incerto quanto ao sucesso do investimento . Admito excepções : industria farmaceutica vem-me à memória . Nesta industria o montante investido em I&D é significativo , havendo grande grau de incerteza quanto ao resultado . Mesmo nesta industria as coisas começam a alterar-se por via da entrada de grande quantidade de fabricantes de genéricos ( fim do período de protecção às patentes ) , e também devido às fusões e aquisições que se verificam no sector , procurando proteger as margens , havendo um sentido claro de diminuição dos fundos dedicados a I&D . Voltando à linha condutora do meu pensamento - admitindo excepções - a regra é : investimento , sim , mas com retorno rápido e seguro .
Com este tipo de regra muito do que hoje assistimos de inovador e criador de novas fronteiras para o conhecimento humano , não existiria se não tivesse havido investimento público em I&D , exemplos : micro e biotecnologia ,micro-electrónica , nanotecnologia , robótica , novos materiais , novas tecnologias no foro médico . Muito deste conhecimento foi gerado em Universidades ou Institutos Públicos suportados pelo erário público . Posso chamar a isto : Investimento Público . Algum daquele conhecimento tem mais de 25 anos de pesquisa , com todo o tipo de gastos que lhe estão associados , sem haver o mínimo de garantia de sucesso .
O ponto que quero fazer é : sem investimento público neste tipo de actividades , simplesmente a humanidade não teria chegado lá porque a lógica da economia de mercado não teria permitido que as empresas privadas ( eventualmente com alguma excepção ) o tivesse feito . Este facto coloca uma questão interessante sobre o evoluir das sociedades de economia de mercado - se quizermos : sociedade capistalista - e o papel do poder público como investidor . Novas exigências e regras estão a ser desenhadas . Quero com isto dizer que o poder público - leia-se Estado / Governo - vai deixar de investir em infra-estruturas ? A resposta é : não ! Mas torna-se claro que o papel do poder público / estado vai ser substancialmente alterado e alargado , sendo necessário que assuma um papel activo na criação de novo conhecimento através das suas universidades e institutos de investigação , devido ao : tempo , dinheiro a investir e grau elevado de incerteza quanto ao resultado produzido .
Sou totalmente favorável a este papel do Estado / Governo . É por esta razão que me senti agradado com a notícia do Expresso - 24 de Abril - caderno de economia - pag. 19 . Transcrevo um pouco do artigo :
" Revolucionar o negócio da energia , descobrir tratamentos inovadores com células estaminais , conceber carros eléctricos só para andar em cidades ou dar qualidade de vida a quem precisa de próteses para caminhar são apenas alguns exemplos do que está a ser feito no programa MIT - Portugal .
Um dos principais objectivos da maior parceria europeia com o MIT é encontrar soluções que beneficiem as pessoas e proporcionar às empresas novos modelos de negócio . "
Acredito que esta é uma via fundamental para arrancar Portugal ao marasmo ecómico em que caímos . Por outro lado isto dará saída a inúmeros portugueses devidamente preparados , dando-lhes a oportunidade de ajudarem a criar riqueza para o país . É desulador ver sair para o estrangeiro 400 licenciados por mês devido a falta de perspectivas de futuro para as suas vidas . Portugal , percentualmente já é considerado o país , a nível mundial , que mais mão de obra qualificada exporta ou cede ao exterior . Não são só estatísticas , vou dar-lhes a minha experiência : entre a minha casa e Ponte Sôr - cerca de 4Km - registo os seguintes casos de emigrantes qualificados :
- Fazenda - filho da minha antiga empregada doméstica : está em Inglaterra , licenciatura em engenharia , seguida de doutoramento , está a trabalhar no departamento de motores para aviação da Rolls Royce
- Meu vizinho Augusto - filho com licenciatura no Técnico , seguida de mestrado com nota final de 18 . Trabalha na Suécia
- Minha filha : licenciada em direito , Coimbra , seguida de mestrado em Utrque . Há três anos que é emigrante .
- Ângelo ( um ex-supervisor geral da Delphi PDS ) - filho licenciado em engenharia no Técnico , a fazer doutoramento , trabalha em Taiwan
- Filho do Dr. Gouveia - licenciado em economia - trabalha em Moçambique .
Todas as pessoas citadas são da geração da minha filha .
Seremos tão ricos que possamos continuar a esbanjar todos estes recursos ?
É também por este tipo de situações que acredito que há que investir fortemente em novas tecnologias , novos conhecimentos , porque o futuro de Portugal , também , passa por fazermos aquilo que ainda não existe e foi criado por nós , seja em ciência pura ou aplicada , seja na agricultura , no mar ,nas energias ou no campo médico , etc .
Esta é a minha perspectiva que submeto à vossa crítica .
Um abraço
Adolfo
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Errata :
ResponderEliminarOnde se lê : desulador , deve-se ler : desolador .
É o problema de não ler o texto antes de ser editado . As minhas desculpas .
Adolfo